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Por que a Europa está com os EUA em sua guerra contra a Rússia?

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Elijah J. Magnier

Trad. Alan Dantas

Uma parte significativa da população mundial questiona as razões por trás do apoio incondicional da Europa aos Estados Unidos em sua guerra contra a Rússia em solo ucraniano, apesar das duras perdas financeiras que têm afligido a população europeia. Sob o Presidente Joe Biden, a atual administração americana impôs sua política à maioria das nações, ao passo que seu predecessor teve menos sucesso no velho continente. O ex-presidente americano Donald Trump não conseguiu convencer a chanceler alemã Angela Merkel a fechar o gasoduto “Nord Stream-2”. Ao mesmo tempo, a França preparou o terreno europeu para acabar com o papel da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e apelou para um exército europeu. Os EUA planejaram enfrentar a Rússia; como e por que a Europa desistiu de sua decisão política soberana em benefício de Washington, contrariando os interesses da segurança alimentar e energética do continente europeu?

Há várias razões pelas quais a Europa tomou o partido de Washington em sua devastadora guerra contra a Rússia, atingindo o coração do continente europeu. No entanto, as principais questões permanecem sem resposta: Por quanto tempo a Europa pode manter suas sanções contra a Rússia e pagar as consequências devido ao efeito bumerangue? A Europa não pode manter a política “America First”, mas não pode esperar muito tempo para mudar para uma política “Europe First”. A Alemanha é a primeira a pagar o preço pesado. O gigante de energia Uniper revelou um prejuízo líquido recorde de 40 bilhões de dólares em meio à decisão europeia de cessar a importação de gás para o continente. 

Ao superestimar suas capacidades e poder financeiro, a Europa acredita ser mais importante que a Rússia e, consequentemente, não consegue ouvir as preocupações do presidente russo Vladimir Putin. A Europa projeta suas condições e necessidades sobre a Rússia em vez de estabelecer uma parceria igualitária e negociar com Moscou. Ignorar a Rússia como um parceiro igualitário impede os europeus de verem a situação como ela é e promove os interesses dos EUA – não dos europeus. A reação desproporcional dos líderes europeus (impondo duras sanções que atingem a própria Europa em primeiro lugar) é alimentada por uma ideologia colonialista, considerando que o continente europeu é mais importante do que a Rússia. No entanto, a Europa detém um poder financeiro poderoso, mas depende fortemente de recursos naturais inexistentes.

A Europa acredita ter cometido um erro ao colocar na cesta russa todos os seus ovos necessários em termos de energia. Entretanto, o problema com esta narrativa é sua imprecisão. A Rússia nunca disse que cortaria o fluxo de gás porque precisa das centenas de bilhões de euros pagos anualmente pela Europa pela energia e recursos naturais russos. A Casa Branca – não Moscou – anunciou a decisão de suspender o gasoduto multimilionário russo-alemão Nord Stream 2. Alguns meses depois, o verdadeiro pânico no mercado de energia e uma grave escassez de gás na Europa aconteceu quando os Estados da União Europeia anunciaram sua decisão de parar de comprar gás da Rússia. Além disso, o Nord Stream 1 russo sofreu sabotagem sob o Mar Báltico, interrompendo o caminho para que os líderes europeus voltassem ao negócio de energia com Moscou. Mais de 12 nações européias, incluindo membros da UE e da OTAN, ainda estão desfrutando do gás russo e dependem dele (entre 100% a 60%), desconsiderando as sanções dos EUA e da UE.

O Presidente Vladimir Putin ofereceu à Europa a compra de gás da Turquia através do gasoduto russo Turkstream se o continente estiver disposto a reduzir a severa escassez de gás neste inverno. Esta oferta caiu em ouvidos moucos, e vários líderes europeus insistiram em manter suas sanções auto-suficientes e anunciaram orgulhosamente a redução da dependência do gás russo. Estes líderes decidiram comprar um gás muito mais caro dos EUA, Noruega, Argélia, Cazaquistão e outros recursos e mergulhar seus cidadãos em uma inflação severa por um objetivo que não foi alcançado: aleijar a economia russa.  

A Agência Internacional de Energia advertiu que a Europa poderia ficar aquém dos 30 bilhões de metros cúbicos de gás no próximo verão. Consequentemente, deve tomar medidas imediatas antes do inverno de 2023-2024. Isso só poderá ser possível se a Europa acabar com as repercussões de apoiar a política e o domínio dos EUA. A Europa pode retomar alguns laços com a Rússia. Ainda assim, ela pode levantar as sanções mais prejudiciais para a população europeia se a Rússia se contentar em estabelecer “somente negócios” com o continente. A guerra na Ucrânia é dos Estados Unidos, não da Europa. No entanto, os líderes europeus acreditam e se comportam de outra forma.

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Há poucas dúvidas de que a guerra Rússia-EUA já estava caminhando para um confronto quando Moscou saiu de seu profundo sono, que durou de 1991 a 2015. Foi quando o Presidente Vladimir Putin decidiu defender o único acesso que a força naval russa tem às águas quentes do Mar Mediterrâneo em Tartous, na Síria.

Militantes sírios – apoiados por dezenas de árabes e países ocidentais, incluindo muitos membros da OTAN – confirmaram sua intenção de expulsar a Rússia após a queda do regime em Damasco na guerra que começou em 2011 e se arrastou por mais de dez anos. Esta intenção explícita levou a Rússia e o Irã a encontrar objetivos comuns, cooperar para evitar a divisão do Levante e criar um “novo Oriente Médio” para o qual as administrações dos EUA abriram o caminho. A cooperação russo-iraniana arruinou o plano de Washington, que viu uma ameaça crescente a seus planos e domínio na Rússia.

Entretanto, quando Washington pensou que Moscou estava tirando suas tropas da Síria, a Rússia não hesitou em negociar com os EUA o destino do presidente sírio Bashar al-Assad. Não discordou ao vê-lo retirar-se. Por outro lado, Teerã se ergueu como um baluarte contra qualquer cooperação russo-americana e Washington – em benefício de Assad – rejeitando qualquer colaboração russa séria para pôr fim à guerra.

O Presidente Donald Trump, que mantinha uma relação não-hostil com o Presidente Putin, não conseguiu impedir o apoio militar dos EUA e da OTAN para que a Ucrânia continuasse a preparar o terreno para um futuro confronto. O apoio dos EUA à Ucrânia foi planejado, desde a tentativa fracassada de derrubar o governo ucraniano em 2004 até o bem sucedido golpe de Estado em 2014. Após a “revolução colorida de Maidan”, o apoio militar dos EUA aumentou ao longo dos anos até que Joe Biden finalmente agarrou a oportunidade de participar de um confronto militar com a Rússia, convencido de que a vitória estaria do lado de Washington. 

A chegada do Presidente Trump ao poder só atrasou o confronto EUA-Rússia. Por isso, circulou entre muitos líderes do Oriente Médio que o Presidente Putin preferiu Trump a Hillary Clinton durante a corrida para a presidência dos EUA. Pode muito bem ser que o Kremlin estivesse ciente das intenções belicistas dos democratas na Ucrânia.

Embora ele se recusasse a iniciar uma guerra com Moscou, Trump exerceu a máxima pressão sobre a Alemanha e a França. Ambos os estados europeus se recusaram a obedecer aos EUA e a reduzir o fluxo de fornecimento de energia russa barata. Mas a pressão do ex-presidente dos EUA nunca chegou ao nível de um confronto hostil com seu homólogo Putin. Assim, o nível de escalada – não de treinamento do exército ucraniano que precedeu a guerra – permaneceu sob controle entre a Rússia e os EUA. 

Durante seu mandato oficial como vice-presidente sob Barack Obama, Biden esteve em contato direto com a política da Ucrânia, viajando para Kiev e acompanhando de perto os últimos desenvolvimentos. Entretanto, a chegada à presidência por parte do Presidente Joe Biden alterou as prioridades de sua administração, colocando o Oriente Médio em seu nível mais baixo e elevando a Ucrânia ao topo de sua agenda.

Biden quis enfrentar Putin para matar dois coelhos de uma cajadada só, Rússia e China, e enviar uma mensagem severa a qualquer país que desafiasse o unilateralismo dos EUA, incluindo a Europa. O Secretário de Defesa dos EUA, Lloyd Austin, disse que a China era o único concorrente capaz de remodelar o mundo (criado e moldado pelos EUA). Austin considerou a Rússia um “sério risco” e disse que a China e a Rússia estavam se aproximando. Isto indica os objetivos de longo prazo dos EUA para proteger seu unilateralismo, embora sem garantia de sucesso.

Os EUA aceleraram sua cooperação militar com a Ucrânia, incluindo Kiev, em várias manobras com a OTAN, treinaram seus membros no uso de armas ocidentais e a integraram em sua ideologia anti-Rússia em preparação para Kiev aderir à OTAN. A Ucrânia pretendia caminhar por detrás do Ocidente e afastar-se totalmente da Rússia. Kiev acredita que seu lugar é com o Ocidente e estava pronto para desafiar a Rússia; recusa-se a permanecer neutra e está pronta para pagar um preço elevado, se necessário, para aderir à OTAN e à União Europeia. Afinal, a OTAN é uma organização militar formada para enfrentar a União Soviética e continuou a se expandir após a queda dos soviéticos. Os doze membros da OTAN criados para enfrentar Moscou em 1991 tornaram-se 30 após a queda da União Soviética. A OTAN está expandindo seu horizonte além de suas fronteiras (Atlântico Norte), e seu Secretário Geral está chamando os Estados membros a se prepararem para um confronto com a China.

A Rússia não previu a determinação ucraniana de desafiar Moscou em caso de conflito, como tem acontecido nos últimos nove meses. Washington estava ciente de que o Presidente Putin – que levantou suas preocupações sobre a aproximação da OTAN com a Ucrânia em 2007 na Conferência de Segurança de Munique – não permaneceria em silêncio. A OTAN provocou a Rússia em 2009, adicionando mais membros à sua Organização.

 Quando Putin se sentiu pronto para defender a segurança nacional da Rússia, e, após múltiplos ultimatos, Washington lhe virou as costas. A Rússia começou a reunir dezenas de milhares de soldados na fronteira ucraniana em abril de 2021, dez meses antes do anúncio da batalha. Putin queria que o mundo percebesse a seriedade com que ele estava empreendendo a guerra se ela fosse imposta a ele.

A América ficou apenas com duas opções: a primeira era que Putin não entraria em guerra com a Ucrânia. Esta opção significava que Kiev aderiria à OTAN e se protegeria com o artigo quinto da Carta da aliança, que afirma que todos os países da OTAN defenderão seus membros se forem atacados. Isto teria levado a América a implantar bombas nucleares em território ucraniano. A OTAN já implantou 150-200 bombas nucleares americanas nos ambientes de seus membros, onde as bases aéreas americanas têm o único controle. 

A segunda opção foi a guerra, que o presidente americano pensou que ganharia, conforme informou aos líderes dos países da União Europeia. De fato, o Primeiro Ministro húngaro Viktor Orban, membro da OTAN e da União Europeia, disse que o Presidente Biden havia dito à Europa que “o Presidente Vladimir Putin não permanecerá no poder”. Orban disse que os Estados Unidos acreditavam que derrotariam a Rússia e que sua economia poderia ser derrubada em apenas alguns meses.

O Primeiro Ministro húngaro falou abertamente contra o plano fracassado dos EUA, acrescentando que “se Angela Merkel e Donald Trump estivessem no poder, não haveria guerra na Ucrânia. E quem acredita que a guerra terminará através das conversações ucraniano-rusas não vive neste mundo”, frisou ele. Orban estava se referindo à necessidade de que os EUA (não a Ucrânia) e a Rússia se sentassem à mesa de negociações para acabar com a guerra.

A batalha ainda continua, e a queda de Putin e a vitória do Ocidente parecem distantes. A Europa acreditava o contrário e não queria ficar longe dos “despojos de guerra” dos EUA e garantir o sucesso. O coordenador de Relações Exteriores da UE, Josep Borrell, acredita que “a Europa é como um belo jardim e o resto do mundo é uma selva”. Assim, os líderes europeus ainda têm a ideologia do colonialismo e a crença de que o mundo gira em torno da Europa e que o resto dos países vivem fora do círculo da civilização e do progresso.

Esta observação racista e esta tendência decorrem da rica história da Europa de roubo de riqueza dos povos e continentes ao longo de muitas décadas. Os recursos naturais foram roubados pelos conquistadores europeus da África, do Oriente Médio, da Ásia e da América Latina. Uma mentalidade semelhante empurra a Europa a se juntar cegamente aos EUA para compartilhar os benefícios da “queda da Rússia”, de acordo com seus cálculos ou erros de cálculo. 

O resultado até agora para a Europa é contraproducente, e Moscou reagiu inesperadamente com força, empurrando os líderes europeus para severas dívidas financeiras e enfrentando um desmantelamento da indústria européia. A Europa precisará, mais cedo ou mais tarde, encontrar maneiras de apaziguar o descontentamento popular generalizado sobre as más condições de vida, a alta inflação e a escassez de energia. A crise europeia parece estar apenas em seu início, e o alarme será disparado para os próximos anos se não forem vistas mudanças na política dos líderes europeus em relação à Rússia.

Chegou a hora de o continente europeu ser mais sensível à realidade da carga financeira sobre sua população. Os líderes europeus podem desconhecer que o mundo civilizado não está apenas dentro de seus muros. Ainda assim, esses outros continentes têm civilizações antigas, recursos naturais e alternativas para escolher parceiros que não sejam do Ocidente. Muitos países do mundo foram destruídos por décadas de guerras ocidentais e mudanças de regime diretamente pelas “revoluções coloridas” ou invasões do Ocidente, como em Cuba, Venezuela, Irã, Iraque, Afeganistão, Síria e Líbano, para citar apenas alguns.

A Europa pode não saber que o mundo não considera mais os problemas do Ocidente, mas sim os problemas do mundo inteiro. Os países ricos em petróleo rejeitaram os ditames ocidentais para aumentar sua produção de petróleo e reduziu-a em dois milhões de barris por dia na OPEP+, desconsiderando a reação dura dos EUA e a necessidade de petróleo da Europa.

Países não ocidentais como China, Índia, Paquistão, Brasil, Irã, África e outras nações que representam dois terços da população se recusam a seguir a política do Ocidente e sua “má aposta” no curso da guerra na Ucrânia, agora prevista para durar muito tempo. A Europa está caminhando para seu empobrecimento enquanto os EUA estão prontos para sacrificar o velho continente e considerá-lo um “dano colateral” para manter seu domínio. Esse domínio parece estar agora em sério perigo.

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