Russia está no Oriente Médio para por fim àquela Guerra, não para se Intrometer no Conflito Irã-Israel, por Elijah J. Magnier

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Blog do Alok

sexta-feira, 18 de maio de 2018

16/5/2018, Elijah J. Magnier Blog, Damasco

Traduzido pelo Coletivo Vila Vudu

Equívocos frequentes cercam o papel da Rússia no Oriente Médio e, particularmente, seu papel na Síria. Muitos sírios esperam que a Rússia ataque Israel, ou que entregue ao governo sírio, e suas armas avançadas, tecnologia e armas modernas, para que sejam usadas contra as repetidas violações, por Israel, do espaço aéreo e da soberania da Síria.

Na verdade, os sírios gostariam de ver a Rússia bombardear Israel ou assumir o lado do Irã (e aliados) no conflito contra Israel, e entregar à Síria os avançados mísseis antiaéreos S-300 mísseis e até os S-400s. Até hoje, todos que manifestam sentimentos anti-Israel acham difícil entender o papel da Rússia (no Oriente Médio em geral e na Síria em particular).

Isso vale para a natureza de seu relacionamento com Israel também e até mesmo com os EUA. Vemos acusações de “traição” lançadas contra a Rússia e o presidente Vladimir Putin.

É hora de lançar alguma luz sobre o papel da Rússia no Oriente Médio e considerar de perto a história recente do envolvimento dos russos no Levante.

Rússia na Síria:

Até julho de 2015, a Rússia vem fornecendo armas e peças de reposição para o Exército Árabe Sírio, EAS. Muitos navios desembarcaram no Mediterrâneo Sírio, onde a Rússia mantém uma base naval desde a década de 1970. O Irã contribuiu generosamente para pagar esses embarques e Rússia ofereceu armas a custo muito baixo (metade gratuita, metade paga), ciente de que a Síria tinha de enfrentar os takfiri wahhabistas salafistas no Levante.

Na verdade, a Rússia acreditava que, se as coisas piorassem, os takfiri da al-Qaeda e do “Estado Islâmico” (ISIS) nunca seriam confiáveis para controlar Lattakia, província onde está situada a base naval russa e só o governo central de Damasco poderia garantir a segurança da capital, de Homs e Hama e das províncias de Zabadani e Lattakia províncias, juntamente com seus aliados (temporários) no “Eixo da Resistência.”

Em julho de 2015, o Irã e seus aliados decidiram retirar-se de todas as áreas rurais e optaram por defender as cidades sírias, dada a impossibilidade de proteger os vastos territórios controlados por jihadistas. Foi quando o Irã enviou a Moscou seu enviado especial na Síria, o chefe do Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica, comandante das Brigadas “Quds”, general Qassem Soleimani, seguido logo depois pelo Almirante Ali Shamkhani, para expor a posição militar e esclarecer as dificuldades enfrentadas em campo. Soleimani reuniu-se mais de uma vez com as mais altas autoridades russas, às quais explicou que talvez já fosse tarde demais para proteger toda a Lattakia contra foguetes e mísseis jihadistas, e que a base e a presença russa em águas temperadas com certeza estavam em perigo.

Era possível confiar nos aliados para protegerem a capital Damasco, a estrada do aeroporto, a área circundante de Sayyeda Zeinab, as fronteiras entre Líbano e Síria a partir de Talkalakh até Zabadani e Tartous. Os aliados mantiveram um status quo para o governo central e para o “Eixo da Resistência” de modo a manter no governo o presidente sírio, Bashar al-Assad e preservar o fluxo de apoio militar a partir do aeroporto e do porto sírio no Líbano.

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Depois de longa hesitação, a Rússia tomou a decisão de enviar sua Força Aérea para a Síria, em setembro de 2015. Putin não dava sinais de muito entusiasmo ante a ideia de declarar animosidade contra os EUA justamente na área que os EUA operacionalmente como ‘quintal’ deles, o Oriente Médio. Os EUA investiram bilhões de dólares, dinheiro deles e da Arábia Saudita, no esforço para mudar o regime na Síria.

As Forças Especiais dos EUA e a CIA estavam realizando programas de treinamento na Jordânia, Qatar e Turquia para o mesmo propósito. O Reino Unido, juntamente com os EUA, investira dezenas de milhões para treinar os jihadistas em táticas de propaganda fake e em inteligência de mídia social para atrair a opinião pública mundial em favor de “mudança de regime” e para apresentar uma realidade pesadamente camuflada: “Mesmo que ofereçamos ajuda aos jihadistas da al-Qaeda, eles são o mal menor. E Bashar al-Assad deve ser removido “. Não havia estratégia ou plano para lidar com um eventual estado falhado.

O mundo aceitou esse projeto e a mídia-empresa dominante cumpriu seu “serviço sujo”, afastando-se de seus deveres e função, de informar as pessoas sobre a realidade, sem se envolver diretamente no conflito. O mundo inteiro foi vítima dessa cobertura preconceituosa da mídia, baseada na ausência de fontes confiáveis. A doutrina e estratégia americana dos Estados Unidos, de usar a mudança de regime para ‘promover a paz’ é claramente contraproducente e, de fato, só produz uma coisa: a hegemonia dos EUA.

Putin não se sentia pronto para mergulhar no atoleiro sírio. Muitos países estavam envolvidos e o Afeganistão ainda assombrava a liderança russa. No entanto, as “consequências não intencionais” da política dos EUA para a Ucrânia e sua tentativa, juntamente com a Comunidade Europeia, para arrancar a Rússia do país e cortar-lhe a importante renda do petróleo e do gás vendidos à Europa acabaram por empurrar o urso russo para o atoleiro no Levante.

Putin alocou mais ou menos o orçamento anual do Ministério da Defesa, para treinar e desenvolver armas a serem usadas na Síria.

Colheu a oportunidade de ouro de mover suas peças no tabuleiro de xadrez, de modo a fazer os EUA compreenderem que a Rússia já não é fraca, que se tornou capaz de proteger seus interesses fora de seu território ou zona de conforto.

A mensagem russa para os EUA foi clara: se você quiser jogar no nosso jardim ucraniano, nós jogaremos na floresta de vocês no Oriente Médio.

Rússia mudou-se para a Síria não para vencer alguma guerra, mas para pôr fim àquela guerra que já estava em curso, para impedir que os jihadistas assumissem o controle e para proteger interesses seus e de seus aliados. A Rússia está empenhada em eliminar todos os jihadistas caucasianos que se uniram ao ISIS e à al-Qaeda, impedindo-os de voltar para casa ou de recrutar combatentes em seus locais natais. A Rússia tinha ainda três outros objetivos: garantir presença de longo prazo para sua base natal no Mediterrâneo em Tartus; levar todos os envolvidos à mesa de negociações; e pôr fim à operação dos EUA para ‘mudança de regime’. A Rússia também tinha por objetivo explorar as ricas jazidas de petróleo e gás sírios e proteger sua linha de suprimento de gás para a Europa.

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Para a Rússia – diferente do Irã -, Assad não era personagem essencial a ser protegido ’em si’: o que mais interessava proteger era a estabilidade do governo sírio. A Rússia estava pronta a ceder e a pedir a Assad que renunciasse e indicasse outro alauíta para substituí-lo, se esse fosse o preço para pôr fim à guerra (não foi feito desse modo porque o Irã sempre se posicionou contra a saída de Assad e recusou qualquer acordo que envolvesse esse ponto).

O objetivo de Moscou nunca foi derrotar Washington em todos os campos na Síria; havia espaço portanto para concessões e negociações. Aparentemente, Putin tentou imitar o que Yasser Arafat disse certa vez: Negocio com o ramo de oliveira em uma mão e a [metralhadora] AK-47 na outra.

Moscou queria ter aberto o canal diplomático com os norte-americanos, e estava pronto para um jogo de “soft power “, no máximo, nunca a ponto de se opor beligerantemente ao establishment dos EUA.

Só quando a Turquia derrubou um jato russo no final de 2015, a Rússia afinal compreendeu até que ponto os EUA estavam dispostos a ir. Então Putin recusou-se a cair na mesma armadilha em que os EUA apanharam Leonid Brezhnev, quando o fizeram meter o Exército Soviético no Afeganistão em 1979.

Foi quando Putin ordenou uma ação punitiva financeira (mas não militar) contra a Turquia, membro da OTAN, sabendo que o presidente não estava sozinho neste desafio.

O que acontecera naquele dia já era então bem claro: a defesa aérea turca demorou apenas 16 segundos para abater o Sukhoi russo, quando o piloto aproximou-se de fronteiras virtuais entre Síria e Turquia, em ação contra jihadistas pró-turcos em Kessab. O tempo foi curto demais para que a informação percorresse todos os canais da alta defesa aérea turca, ida e volta da sala de comando do Ministério da Defesa da Turquia e o presidente Erdogan, até as baterias antiaéreas. A Turquia estava à espera do jato russo, já com um dedo no gatilho.

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Normalmente a Rússia Informa os americanos de todos os planos como parte do acordo de desconflitação, para evitar incidentes no céu, dado que Rússia e EUA operam no espaço aéreo da Síria.

A Rússia restabeleceu seus laços comerciais com a Turquia, depois de vários meses de interrupção, quando se tornou conveniente para Rússia e Erdogan, que sentiu a possível participação dos EUA – no mínimo, os EUA tinham conhecimento do golpe e não preveniram os turcos. Foi quando a diplomacia americana agiu com extrema rapidez. O secretário de Estado dos EUA, John Kerry, conseguiu, depois de meses de negociações, arrancar um acordo de seu contraparte russo Sergei Lavrov, que criava linhas de demarcação entre as cidades e preservava o status quo em todos os fronts e mantinha em solo a Força Aérea da Síria. Todos os militantes manteriam o controle dos territórios que controlavam naquele momento. O mesmo teria sido válido para o exército sírio. A Rússia ter-se-ia dado por satisfeita, com pôr fim à guerra na situação em que estava naquele momento.

Os objetivos do Irã e da Síria não eram idênticos aos objetivos dos russos em muitos pontos. Teerã e Damasco estavam determinadas a libertar todo o território sírio. Muito apreciaram ver uma superpotência – a Rússia – entrando na Síria e enfrentando outra superpotência, os EUA.

O Irã não poderia lidar sozinho com aquela situação; nem mesmo com a ajuda dos seus aliados. O apoio financeiro, treinamento militar e hardware que os jihadistas estavam recebendo tornavam indispensável a participação do Irã. Sempre seria possibilidade que Teerã exploraria, se algum dia a Rússia se recusasse a mergulhar no atoleiro sírio. [Sem os russos] O custo teria sido muito alto, muito pior do que a guerra Irã-Iraque. Arábia Saudita e Emirados também mandariam soldados para a Síria; o Qatar contribuiria financeiramente, e o Oriente Médio seria jogado em guerra muito maior, da qual Israel e os EUA muito apreciariam envolver-se, contra Síria e Irã.

Para o Irã, a queda de Bashar al-Assad significaria a queda do próprio Irã e de seu aliado estratégico do Hezbollah; e na sequência cairia o Iraque. Teerã sempre esteve disposta a apostar tudo, até o último homem, e assim continua até hoje.

O caso da Rússia é totalmente outro. A estratégia da Rússia é manter no poder um governo sírio, e impedir, a qualquer custo, que jihadistas assumam o comando.

Foi só quando o Pentágono discordou de Kerry, que queria manter-se o acordo com a Rússia e pôr fim à guerra na Síria, que Moscou decidiu continuar lutando e libertar Aleppo.

A Rússia sabe que não pode prescindir de uma força terrestre sólida, bem treinada e motivada para recuperar o território. Jihadistas aprenderam a se proteger de ataques aéreos quando entrincheirados nas cidades. Nesse ponto entram as notáveis forças do Hezbollah e das Forças “Tigre”, da elite do Exército Árabe. A Rússia sabia bem que não estaria sozinha na guerra e que logicamente não poderia-ter última palavra em tudo.

O Irã, sem apoio russo, moveu-se para al-Badiyah (na estepe síria) e continuou Rumo a al-Tanf e depois para Albu Kamal. As forças do Irã esperaram durante três semanas, enquanto as Forças Tigre liquidavam o ISIS, na batalha de Deir-ezzour com o ISIS.

Até que Soleimani perdeu a paciência e ordenou o ataque ao ISIS em Albu Kamal. Diante do empenho do Irã e aliados naquele combate, a Força Aérea Russa decidiu dar ‘uma mão’ às forças terrestres do Irã, depois de já estar em andamento a remoção de ISIS para fora da província de Deir-ezzour.

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A Rússia tampouco participou com o Irã e seus aliados na libertação de Beit Jinn e Mazraat Beit Jin (fronteira da linha de cessar-fogo de 1974) nem da libertação de Daraa e Quneitra.

Os russos tinham um acordo com os EUA e os israelenses, de que se manteriam longe daquela fronteira sensível, para garantir que Israel não viesse a ser diretamente atingida por forças russas na Síria. Para Israel, só a expulsão dos jihadistas takfiri e o fim da guerra na Síria já eram desvantagens consideráveis.

Telavive garantia assistência logística, médica e de inteligência, além de, escandalosamente, fornecer os serviços da própria artilharia e da própria Força Aérea – postas a serviço de apoiadores do ISIS e da al-Qaeda (Jaish Khaled Bin al-Waleed) nas fronteiras entre Israel e Síria.

Deter a guerra também implicou vantagem para o exército sírio, que pôde descolar para o norte a maioria das forças.

Na verdade, Rússia e Israel mantiveram bom relacionamento, independentemente de suas diferenças na Síria. Israel precisa desesperadamente da Rússia, por causa de sua presença na Síria. A Rússia é capaz de conter por algum tempo os objetivos de Teerã e Damasco na Síria e de estabelecer alguns limites até o fim da guerra.

A ausência da Rússia no Levante significaria dezenas de milhares de aliados do Irã plantados nas fronteiras com Israel. Simultaneamente, a Rússia também pode entregar à Síria armas decisivas para o fim da guerra.

Israel já está muito descontente com os russos, por terem entregue à Síria o míssil antinavios (Yakhont) para a Síria. Israel sabe perfeitamente que o estoque russo de mísseis “Kornet” antitanques e guiados a laser chegou efetivamente às mãos do Hezbollah em 2006 e neutralizou os blindados Merkava israelenses durante a segunda guerra (mais de 55 tanques foram destruídos e danificados). Acredita-se que os “Yakhont” já estejam em mãos do Hezbollah.

Não se pode dizer que a Rússia esteja posicionada completamente contra a necessidade de segurança de Israel, por mais substancialmente que esteja ajudando a Síria. Sim, mas sob uma condição: se Israel põe-se a brincar com fogo na Síria, e a lançar mísseis contra pontos onde há oficiais russos misturados aos demais aliados em todo o território sírio, a ação dos russos pode mudar drasticamente. Israel sabe disso.

Também nisso, o Irã não concordava com todos os planos militares e políticos dos russos, mas compreendeu claramente que só Moscou tem a capacidade internacional para fazer avançar o fim da guerra, para que ISIS e al-Qaeda fossem eliminados.

Os apoio dos EUA à al-Qaeda (ao lado de Turquia, Arábia Saudita e Qatar) foi verdadeiro dilema para as forças sírias e seus aliados, porque eram seus inimigos prioritários a serem eliminados. Quando a Rússia entrou na guerra e decidiu pôr fim aos terroristas, o ISIS afinal ficou órfão e indefeso.

Adiante, Síria e Irã concordaram em avançar para um acordo político pelo qual os rebeldes reminiscentes seriam entregues ao controle da Turquia, no norte.

Todo o comportamento dos russos mostra que o país não veio à Síria para iniciar uma terceira guerra mundial. Mostrou contenção quando a Turquia abateu seu jato. Outra vez os russos se contiveram, quando os EUA assassinaram dezenas de empreiteiros da Rússia em Deir-ezzour. E ainda outra vez, quando os EUA dispararam a primeira onda de 59 mísseis cruzadores por cima de posições russas, contra o aeroporto militar Shuay’raat; e também quando o Pentágono amaciou a resposta de Trump, que lançou a segunda onda, alguns meses mais tarde, de 100 mísseis cruzadores, contra alvos sírios evacuados (depois de informar aos russos a hora e o banco de alvos do ataque).

A Rússia não tem intenção de participar da guerra entre Israel e o Hezbollah ou Israel e Irã. De fato, a Rússia pretendia acalmar a tensão para poder promover o fim da guerra na Síria. A Rússia não está incluída no conflito iraniano-israelense.

Não faz sentido definir o conflito Irã-Israel, como se fosse conflito árabes-Israel.

De fato, a inimizade entre muçulmanos e israelenses no Oriente Médio está hoje reduzida a Irã e aliados versus Israel. A Arábia Saudita (o príncipe herdeiro Mohammad Bin Salman e a mídia saudita) está flertando abertamente com Israel, derrubando tabus e trocando visitas oficiais com Israel.

Israel e Rússia mantêm boas relações, por mais que essa relação seja mal compreendida por incontáveis analistas. Não é verdade que Putin convidou Netanyahu para o “Dia da Vitória” para “mandar um recado à Síria”.

Ambas, Damasco e Teerã estão cientes do tipo de relacionamento que há entre Moscou e Tel Aviv, e vice-versa.

Nem o Irã nem a Síria de modo algum acatará qualquer tipo de ultimato que lhe venha de russos ou israelenses. A Rússia nada teria conseguido na Síria sem aliados iranianos e seus soldados em campo. A recíproca também é verdade.

Irã e Síria compreendem a ligação russo-israelense e não tentarão rompê-la. A Rússia, por sua vez, compreende o relacionamento sírio-iraniano e sabe que já várias vezes fracassou ao tentar alterá-lo.

A Rússia também precisa muito de Síria e Irã, como líderes mundiais da campanha contra a dominação unilateral dos EUA sobre o mundo – não apenas como parceiros comerciais e no negócio da energia.

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O que a Rússia conseguiu fazer na Síria? Eis alguns dos feitos nos russos na Síria:

– A Rússia impediu que o presidente Obama bombardeasse Damasco e convenceu os EUA a aceitar a destruição das bombas químicas da Síria. Para a Síria, após a experiência do Hezbollah em 2006, ter mísseis de precisão é mais que suficiente para criar um equilíbrio com Israel. Armas químicas despertam a ira do mundo, na história moderna, contra quem as use.

– A Rússia (com a China) impediu a ONU, os EUA e a Europa aprovassem a resolução que criaria um ‘estado falhado’ na Síria, semelhante ao que fizeram contra a Líbia em 2011.

– A Rússia continuou a abastecer o Exército sírio com todas as peças de reposição de veículos militares, tanques e jatos, mesmo quando o exército estava dividido e portanto também todos os depósitos de armas espalhados pela Síria, entre pró-rebeldes e pró-Assad.

– A Rússia mandou para a Síria a sua Força Aérea e deteve o avanço de jihadistas, apesar da zombaria de analistas que conseguiram dificultar a ação dos russos durante os primeiros seis meses.

– A Rússia impediu que os jihadistas assumissem o controle de todas as zonas rurais, enquanto Irã e aliados só conseguiam defender as principais cidades.

– A Rússia libertou Kessab e as áreas rurais de Lattakia no momento em que a Turquia oferecia apoio à al-Qaeda, permitindo que os jihadistas usassem o território turco e atacassem pela retaguarda o Exército Árabe Sírio. Havia então ameaça direta a Lattakia, quando al-Qaeda chegou ao Mediterrâneo.

– A Rússia impediu que os EUA destruíssem toda a infraestrutura do Exército Árabe Sírio; impediu a destruição do palácio presidencial (que simbolizaria, se acontecesse, a queda do regime); e pressionou os EUA a limitar os mísseis cruzadores disparados contra o aeroporto militar  Shyayraat.

– A Rússia criou áreas de desconflitação e desescalada, separando rebeldes e jihadistas; isso permitiu que o Exército Árabe Sírio e aliados isolassem as áreas hostis e as recuperassem uma a uma.

– A Rússia fez um acordo com a Turquia (que ordenou que milhares de seus ‘agentes locais’ deixassem Aleppo antes do assalto), que possibilitou a libertação de Aleppo.

– A Rússia deteve o ataque na área rural de Idlib, para se virar imediatamente na direção de al-Ghouta e impedir a possível queda de Damasco. Os EUA planejavam empurrar dezenas de milhares de rebeldes, de al-Tanf para Ghouta, para unirem-se a outros dez mil jihadistas em Ghouta e marcharem sobre Damasco.

Era o único plano com chances reais de virar completamente a situação em campo contra a Rússia e aliados, quando a guerra já estava praticamente ganha – se tivesse sido posto em execução.

– A Rússia enfrentou combate violentíssimo contra 20-30 mil militantes do grupo pró-sauditas “Jaish al-Islam”, até forçá-los a deixar Ghouta, áreas rurais de Homs e de Hama rural e tomarem o rumo da área ao norte, controlada pelos turcos.

– A Rússia impediu que os EUA atacassem todas as posições do Exército Árabe Sírio, bases militares do Irã, aliado da Síria (impedindo assim uma grande guerra contra Israel que se espalharia por todo o Oriente Médio). Os EUA foram forçados a mudar duas vezes o seu plano de guerra e, por pressão do Pentágono, concordaram com informar à Rússia todos os seus alvos; também concordaram com limitar o ataque a no máximo 100 mísseis cruzadores contra alvos já evacuados.

– A Rússia dispôs todos os seus sistemas de defesa aérea (entregou à Síria 40 canhões de mísseis antiaéreos Pantsir-S2) em posições das quais puderam caçar e derrubar os mísseis dos EUA, o que cobriu de ridículo o ataque dos EUA.

– A Rússia criou as conversações de Astana, como alternativa às conversações de Genebra, e criou sua própria plataforma de mediação política. Hoje, após a libertação de Ghouta e Hama e Homs, já não resta em Genebra nenhum grupo rebelde com o qual o governo sírio seja obrigado a negociar em Genebra. Os atores anti-Assad foram desarmados Os atores contrários ao governo sírio foram desarmados e devolvidos aos respectivos patrões.

Hoje, as conversações de paz estão concentradas nos países, não nos grupos de ‘agentes’ locais mercenários: de um lado, EUA no nordeste e leste (Al-Tanf); Turquia no noroeste; EUA/Israel no sul; e Rússia, com o Irã e a Síria, do outro lado.

– A Rússia falou duro com Israel quando seus jatos bombardearam o aeroporto militar T-4. Putin disse a Netanyahu que seus mísseis chegaram a 50 metros da posição russa no T-4 e que a Rússia não aceitaria tal coisa. O acordo mandava Israel abster-se de atacar qualquer das forças que estivessem engajadas na luta contra ISIS e al-Qaeda.

A Rússia ameaçou pôr os S-300s na Síria, se os jatos israelenses algum dia voltassem a cometer esse tipo de ataque não autorizado e não coordenado na Síria.

Israel informou a Rússia de sua presença no ar, com 28 jatos para bombardear posições sírias e iranianas.

A Rússia avisou seus aliados sobre a rota e os objetivos dos jatos israelenses. As baixas foram limitadas (alguns soldados sírios; nenhuma baixa entre os iranianos).

Síria e Irã responderam, criando uma nova Regra de Engajamento e incluíram as colinas ocupadas no Golan como futura arena de combates.

A Rússia mudou de posição: já não espera que Assad desista e saia. Moscou apoia a realização de eleições livres na Síria, monitoradas pela ONU em 2019.

A Rússia também está plenamente consciente de que o relacionamento iraniano-sírio é muito mais forte e estratégico depois de sete anos de guerra. Destino, geografia, inimigo comum, aliados estratégicos (Hezbollah) – tudo está hoje fundido num só destino e num só objetivo: proteger o regime sírio, que considera o Irã seu parceiro mais leal.

A Síria abriu seus depósitos para o Hezbollah em 2006; e o Hezbollah retribuiu vindo à Síria com milhares de combatentes para proteger o “Eixo da Resistência”.

Também o Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica está na Síria desde 1982 e de lá não sairá até que o governo sírio o ordene. O Corpo dos Guardas da Revolução Islâmica já estava na Síria, garantindo apoio ao presidente Assad, desde antes de a Rússia chegar; e ofereceu financiamento, homens e armas sem dar nem exigir garantias de sucesso.

Depois veio a Rússia, que sempre soube muito bem da dinâmica e do relacionamento entre Irã e Síria.

No tempo que resta da atual guerra na Síria, a Rússia tentará manter o equilíbrio em suas relações com Israel, Síria, Turquia, EUA e Irã.

Ao mesmo tempo, a Rússia tentará não atacar os EUA e aceita partilhar o mesmo espaço (na Síria), enquanto as duas forças permanecerem nessa área (permanência que não tem de estar necessariamente nos planos de Damasco e Teerã).

O que a Rússia deu à Síria absolutamente não cabe num artigo. Mas a luta não acabou, e ainda há pela frente um longo caminho a percorrer.

O que muitos esquecem é que a Rússia não é alguma espécie de apêndice do exército sírio ou do exército iraniano, nem faz parte do “Eixo da Resistência” – apesar de não estar muito distante de algumas das suas lutas e dos seus objetivos. Contudo, sem o “Eixo da Resistência”, a própria Rússia não teria podido ir muito longe.

Sem a Rússia, muito provavelmente haveria bombas voando sobre o Oriente Médio entre Irã e Israel, entre o Hezbollah e Israel, entre Síria e Iraque – e alguns países árabes estariam em chamas, sobretudo hoje, quando os EUA estão sob o comando de um presidente que toma decisões de guerra na mesma mesa em que come bolo de chocolate e para quem Iraque e Síria é ‘tudo a mesma coisa’.*******

Postado por Dario Alok às 14:35

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Marcadores: Elijah J. Magnier, Geopolítica, Guerra da Síria, Irã, Israel, Russia

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