A Síria não está na lista de prioridades de Biden

Elijah J. Magnier
Trad. Alan Dantas


É improvável que o Presidente Joe Biden coloque a Síria em sua lista de prioridades pela simples razão de que nenhuma solução até agora imaginada atende aos interesses dos EUA. Consequentemente, espera-se que as forças norte-americanas que ocupam o nordeste do país e a passagem de Al-Tanf entre o Iraque e a Síria, bem como todas as outras medidas, permaneçam inalteradas pelo menos durante o primeiro ano da administração Biden. Assim, a administração Biden provavelmente se beneficiará das sanções impostas pelos EUA por Donald Trump, sem modificações significativas. É altamente provável que os EUA continuem a interpretar mal as dinâmicas locais, incentivem confrontos e divisões entre as populações dentro do mesmo país, e mantenham sua crença errônea de que podem mudar os regimes com sanções severas.

De fato, há considerações importantes que os EUA precisam examinar antes de dar qualquer passo para mudar o status e a política em relação à Síria. Os EUA consideram, antes de tudo, os interesses israelenses e a segurança nacional de Israel no Levante. Israel dá grande importância à manutenção das forças norte-americanas que ocupam o nordeste da Síria e al-Tanf, para atrasar ou tentar impedir o fluxo de logística e comércio entre Beirute, Damasco, Bagdá e Teerã. No entanto, suas forças auxiliares, as forças sírias e os aliados do Irã assumiram o controle da travessia do norte de Albu Kamal. Este movimento foi orquestrado pelo general iraniano Qassem Soleimani (assassinado pelos EUA em Bagdá em janeiro de 2020) para grande surpresa e antipatia das forças norte-americanas – arruinando a celebração de Israel do controle dos EUA sobre a principal travessia de comunicação entre o Iraque e a Síria em al-Tanf.

A presença das forças dos EUA na Síria fornece apoio moral, de inteligência e militar a Israel. Este último afirma ter lançado mais de mil ataques desde o início da guerra em 2011 em múltiplos locais sírios. Israel depende das forças norte-americanas próximas (não obstante as bases norte-americanas em Israel) para intimidar a Síria e impedir que seu líder imponha a dissuasão sobre suas repetidas violações. A presença americana pode servir para persuadir o presidente sírio Bashar al-Assad a pensar cuidadosamente antes de iniciar uma batalha de retaliação ou lançar dezenas de mísseis de precisão iranianos que recebeu, contra Israel. Até agora, a violação da soberania e da segurança da Síria por parte de Israel tem sido feita a baixo custo. A falta de uma resposta proporcional por parte de Assad só poderia gerar ataques israelenses ainda mais contínuos. O presidente sírio decidiu não seguir o que o Hezbollah fez no Líbano, cuja ameaça a Israel causou a retirada de seu exército por seis meses – ainda é invisível em todas as fronteiras – nos limites do Líbano por medo de matar um de seus soldados, como prometeu o secretário-geral Sayyed Hassan Nasrallah.

Portanto, Israel fará todo o possível para exercer sua plena influência sobre a administração Biden para impedir que as tropas americanas se retirem da Síria. Isto não causará mudanças na situação atual para o ano corrente, e é realmente difícil para os EUA deixar o posto de fronteira entre o Iraque e a Síria.

A segunda razão é que Joe Biden considera a Rússia um adversário. De fato, o presidente Vladimir Putin ordenou a expansão do aeroporto sírio Hmeimim, que opera sob o comando e a administração da Rússia na província síria ocidental – para receber bombardeiros estratégicos que transportam bombas nucleares. Isto significa que a Rússia está construindo uma base desafiando a base de EUA e Turquia em Incirlik, que contém cinco mil soldados americanos e cinqüenta bombas nucleares como parte das reservas da OTAN, para combater o ataque da Rússia no caso de uma guerra nuclear. A Rússia considera que a Síria se tornou a frente avançada contra a OTAN, sua janela sobre o Mediterrâneo e a substancial base naval russa no Oriente Médio.

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O ex-presidente Donald Trump ordenou a retirada de grande parte de suas forças de várias áreas no nordeste da Síria nas províncias de Hasaka, Deir Ez-Zor e Raqqqa. Ele também abriu espaço para que a polícia militar russa e o exército sírio pudessem mobilizar forças em um número mais significativo nessas províncias e controlar múltiplas posições ao longo das fronteiras sírias com a Turquia. Consequentemente, Biden não é mais capaz de obter o controle total destas províncias antes do avanço russo-sírio e deve deixar o nordeste da Síria para a Rússia e o Exército sírio. Portanto, manter a situação como está pode ser a melhor opção disponível para a nova administração. Caso contrário, se o Presidente dos EUA ordenar às forças norte-americanas que partam de todas as áreas ocupadas na Síria, ele será acusado de deixar o país para a Rússia, um adversário da América, e de ser responsável pela destruição do equilíbrio entre as Superpotências e por minar os interesses dos EUA no Levante.
Quanto à opção curda, Biden não pode, sob a pressão israelense, a influência da pressão do lobby curdo nos EUA, e o apoio que a causa curda desfruta no Ocidente, simplesmente deixar os curdos à mercê da Turquia, para serem considerados e perseguidos como terroristas. As Unidades de Proteção Popular (YPG) sírias – financiadas e armadas pelos EUA e alguns estados europeus – é a filial síria do PKK, o Partido dos Trabalhadores Curdos, que está na lista de terroristas europeus-americanos (e a da Turquia).

Até o momento, os EUA estão impedindo esses curdos de negociar com o governo de Damasco a entrega das províncias de volta ao estado. A pedido dos americanos, os curdos prefeririam abandonar a cidade de Afrin à Turquia em vez de entregá-la ao governo sírio. Os EUA queriam uma compensação para a Turquia para que pudesse manter o acesso direto de Afrin e Idlib para dividir a Síria. Isto apaziguaria os turcos, cujos líderes não apreciam a proteção dos curdos pelos EUA. Os americanos também queriam que a Rússia permanecesse sob pressão em um país que está longe de estar unido sob um governo em Damasco. Permitir que a Turquia ocupasse Idlib e Afrin e que os curdos controlassem os principais recursos petrolíferos e agrícolas do país colocou uma pressão negativa significativa sobre a reconstrução e a prosperidade da Síria após dez anos de guerra.

A administração Biden estará sob uma tremenda pressão se o Presidente Joe decidir normalizar o relacionamento com o Presidente Assad. Isto tornaria inútil a permanência de suas forças ali. Além disso, Biden seria duramente atacado pela maioria dos belicistas ocidentais (que ao longo dos anos investiram um grande esforço para derrubar Assad e mudar o regime, mas fracassaram) se ele recuperasse os contatos positivos com Assad. Portanto, a escolha de Biden de abandonar os curdos não está em questão.

Quanto à presença iraniana, Israel e os Estados Unidos não desejam que o Irã permaneça na Síria, mas não têm as ferramentas para forçar as forças aliadas do Irã e os conselheiros militares iranianos a partirem. A Rússia não convenceu Assad desta opção porque o presidente sírio confia em sua relação com o Irã e confia mais no Irã do que em qualquer outro país. Teerã não impôs nada ao presidente sírio, que está ciente de que o destino dos dois países está unido. Portanto, ele prefere manter suas opções em aberto. Assim, Biden não deve mudar sua posição sobre a Síria e não pode prever nenhum cenário que leve à retirada iraniana do Levante – a menos, é claro, que os EUA também se retirem simultaneamente. Mesmo assim, a influência iraniana na Síria não mudará, com ou sem a presença de conselheiros militares iranianos.

Quanto à Turquia, a relação dos EUA não deve ser cobiçada. Biden gostaria que Ankara removesse os mísseis russos S-400. No entanto, não pode impor qualquer mudança no relacionamento turco-russo, pois este atingiu um nível avançado de cooperação. Há um aumento significativo no intercâmbio comercial e turístico seguido pela construção da linha de gás Turkstream que se estende de Anapa, na costa russa, até a Turquia, Bulgária e Sérvia. Na Síria, o Presidente Recep Erdogan, que lidera o segundo país mais poderoso da OTAN, quer que os EUA deixem de apoiar os curdos sírios. O Presidente turco gostaria que o Presidente Biden tirasse seus soldados da Síria e entregasse o nordeste à Turquia para acabar com os curdos e poder anexar parte da Síria a seu país – como fez com Idlib e Afrin. Isto é o que Biden não pode fazer por enquanto.

Nenhuma grande opção está disponível para a administração do Presidente Joe Biden. Espera-se que mantenha as sanções que pesam sobre a população síria e se beneficie das sanções trumpistas, a “Lei César de Proteção Civil (punição)“. O Presidente dos EUA esperaria que a situação mudasse de uma forma ou de outra para melhorar a posição da Síria nos EUA. Entretanto, as eleições presidenciais sírias se aproximam e, naturalmente, Assad não entrará em colapso nos próximos meses ou anos. Ele permaneceu em seu cargo – por dez anos – apesar da guerra devastadora na qual muitos países ocidentais e árabes participaram. A mudança real seria se os EUA fossem forçados a deixar o Iraque e a Síria, talvez um resultado realista para o futuro sob esta mesma administração Biden.

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